Na manhã seguinte, Lupita preparou café e pão doce, mas Marisol mal conseguiu comer. Seus olhos estavam inchados e suas mãos, geladas.
"Você não pode voltar para lá", disse Lupita. "Aquele homem não te ama, ele está te usando."
Marisol olhou para a mesa.
—Não tenho para onde ir.
—Você tem meus filhos, minha casa e minha amizade. Por enquanto, isso basta.
Mas Marisol sabia que não podia ficar para sempre. Durante uma semana, procurou emprego. Como não sabia ler bem, teve que pedir ajuda para preencher os formulários. Alguns supervisores a olhavam com pena; outros, com desprezo. Finalmente, uma lavanderia industrial perto do terminal lhe deu uma oportunidade. O trabalho era árduo, mas honesto. Ela lavava uniformes de hotel, dobrava lençóis e passava toalhas de mesa. Guardava cada peso que ganhava como se fosse ouro.
Com seu primeiro salário, ela alugou um quartinho em um bairro tranquilo. Tinha paredes úmidas, uma torneira pingando e uma janela que não fechava direito, mas para Marisol era um palácio: ninguém podia gritar com ela ali.
Lupita recomendou que um conhecido consertasse a casa.
—O nome dele é Diego. Ele é pintor e também entende de encanamento. Ele é uma boa pessoa.
Diego chegou num sábado com uma caixa de ferramentas e um sorriso tranquilo.
—Bom dia, você é a Marisol? A Lupita mandou.
Ela assentiu nervosamente.
—As paredes são feias. Eu gostaria de pintá-las, mas não tenho muito dinheiro.
"Veremos o que pode ser feito", respondeu ele. "Não se preocupe."
Durante dois dias, Diego trabalhou sem se intrometer, sem fazer perguntas incômodas, sem olhá-la como Roberto costumava fazer. Quando terminou, o quarto parecia completamente diferente. Antes de ir embora, deu-lhe um cartão.
—Aqui está meu número, caso precise de mais alguma coisa.
Marisol baixou o olhar.
—Você pode salvar no meu celular? Porque… eu não consigo ler muito bem.
Diego não riu. Ele simplesmente pegou o celular e digitou suas informações de contato.
—Claro. Está tudo pronto.
Dias depois, ele voltou para consertar o vazamento. Desta vez, trouxe seu filho, Mateo, um menino de 10 anos com um sorriso travesso.
"Eu não tinha com quem deixá-lo", explicou Diego. "Isso te incomoda?"
—Não, claro que não.
Mateo encheu a casa de perguntas, risos e vida. Marisol não se lembrava da última vez que se sentira à vontade com alguém. Quando Diego terminou, convidou-a para uma apresentação de dança regional na praça.
—Nada formal. O Mateo vai estar lá. Vai ter lanches, música… talvez faça bem para ele sair um pouco.
Marisol hesitou, mas concordou. Naquela noite, em meio a luzes, barracas de milho e música mariachi, Diego perguntou sobre sua família.
"Só me resta a minha mãe", disse ela. "Ela está num lar de idosos. Trabalhou a vida toda na casa de Dona Raquel, a mãe de Roberto."
—Como funcionário?
—Sim. Mesmo antes de eu nascer. Eu cresci lá. Quando minha mãe ficou doente, eu fiquei para ajudar. Aí o Roberto disse que eu era a esposa dele e… bem, foi assim que aconteceu.
Diego franziu a testa.
—Eles se casaram em uma cerimônia civil?
Marisol permaneceu em silêncio.
—Não sei. Nunca assinei nada. Ele disse que não era necessário.
—E eles te pagaram para trabalhar naquela casa?
—Não. Eles me deram abrigo e comida. Assim como fizeram com a minha mãe.
Diego deixou o copo de atole sobre a mesa.
—Marisol… aquilo não era uma família. Aquilo era exploração.
Ela sentiu um vazio no estômago.
—Não, eles cuidaram de mim.
—Não. Eles fizeram você acreditar nisso para que você não reclamasse.
No dia seguinte, Diego a levou a um advogado chamado Esteban Aguilar. Marisol contou sua história com vergonha: os anos de trabalho não remunerado, sua mãe doente, o suposto casamento, as humilhações, as ameaças. Esteban ouviu atentamente, tomando notas.
Quando terminou, o advogado tirou os óculos.
—Marisol, legalmente você nunca foi esposa de Roberto. E o que fizeram com você e sua mãe pode configurar exploração laboral, abuso psicológico e fraude. Se conseguirmos provar, essa família terá que responder por isso.
Marisol sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
—Então, toda a minha vida foi uma mentira?
Esteban não respondeu imediatamente. Ele apenas abriu uma pasta e disse:
—Preciso que você me diga mais uma coisa. Sua mãe ainda está viva?
-Sim.
—Então precisamos vê-la o mais rápido possível. Porque se ela falar, Roberto e Dona Raquel não conseguirão esconder a verdade.
Marisol sentiu o sangue gelar nas veias. Toda a verdade estava nos lábios de sua mãe... e Roberto já sabia onde encontrá-la.
PARTE 3 Para mais informações, continue para a próxima página.