A pena tem um cheiro ruim.
Eu o reconheci imediatamente.
Mas depois que desliguei o telefone, Rosa olhou para mim da porta da cozinha.
"Você deveria ir."
Eu ri baixinho. "Por quê? Para poder ficar olhando para o milionário falido enquanto finjo que não o vejo?"
Ela continuou secando a louça. "Você está agindo como um homem ensaiando o próprio funeral."
Na noite seguinte, Rosa consertou um dos meus ternos cinza antigos até que ele ficasse quase apresentável. Atravessei Miami dirigindo um sedã velho que chacoalhava em todos os semáforos vermelhos.
Quando cheguei à casa de Harold, as luzes da varanda estavam apagadas.
Uma nota de banco dobrada foi encontrada debaixo da porta da frente.
Edward,
emergência familiar. Precisei sair de repente. Ligo mais tarde.
Desculpe.
Eu li duas vezes.
Não havia nenhuma emergência.
Humilhação disfarçada de cortesia.
Dirigi para casa segurando o volante com tanta força que minhas mãos ficaram com cãibras.
A mansão estava estranhamente silenciosa quando entrei. Não vinha música da cozinha. Nem cheiro de sopa. Rosa não cantarolava enquanto limpava.
"Rosa?" chamei.
Sem resposta.
Subi as escadas, o cansaço pesando sobre meu peito. No meio do corredor, vislumbrei uma luz sob a porta do quarto de hóspedes.
Estava ligeiramente aberto.
Empurrei-o ainda mais para longe.
E ele se esqueceu de como respirar.
A sala estava repleta de objetos prateados.
Maços de notas bancárias estavam espalhados pela cama. Caixas transbordavam de livros contábeis, extratos bancários, contratos, pen drives e envelopes lacrados. Rosa estava no meio de tudo aquilo, usando luvas, com o rosto calmo, porém pálido.
Agarrei-me ao batente da porta. "Rosa... o que você fez?"
Ela se virou lentamente.
"Cada dólar aqui pertence ao senhor, Sr. Calloway."
Senti minha boca seca.
Ela pegou uma pasta e a colocou em minhas mãos trêmulas.
"Seus cúmplices não desapareceram com seu dinheiro", disse ela. "Eles o esconderam nas contas da sua esposa."
A moeda inclinou-se.
"Vanessa?"
Rosa acenou com a cabeça uma vez.
"E o Sr. Bennett os ajudou."
Meu coração parou.
Haroldo.
O convite para o jantar.
A falsa emergência.
A classificação.
Antes que eu pudesse dizer uma palavra, luzes vermelhas e azuis piscavam do lado de fora das janelas.
Carros da polícia estavam subindo a minha entrada de garagem.
Rosa olhou para mim, depois para o dinheiro, e sussurrou: "Eles sabem que fui eu que encontrei."