Rodrigo se levantou. Ainda tinha o sol em sua bochecha, mas a ternura havia desaparecido de seu rosto.
—Cara, já chega.
Ignacio soltou uma risadinha.
—Isso basta? Eles estão te desrespeitando na frente de parceiros importantes.
—Você é quem está sendo desrespeitoso.
O silêncio mudou de mãos.
Naquela manhã, seu assistente lhe enviara um relatório estranho: acesso noturno ao seu escritório, cópias de plantas e pagamentos a fornecedores desconhecidos. A senha pertencia a Ignacio. Rodrigo queria acreditar que fora um engano.
Agora eu entendi.
A crueldade do tio não era uma característica inerente a ele. Era uma cortina de fumaça.
Rodrigo pegou o controle remoto do sistema de segurança e ligou a tela no corredor. Elena viu datas, câmeras, horários. Ela não entendeu tudo, mas sentiu que algo sério estava prestes a acontecer.
O vídeo mostrava Ignacio entrando no escritório às 23h43 da noite anterior. Ele não estava sozinho. Um homem de boné o esperava perto da mesa. Ignacio abriu uma gaveta, pegou uma pasta preta e fotografou-a página por página com seu celular.
Um dos investidores murmurou:
—Esse é o arquivo do Vale Esmeralda.
Ignacio perdeu a cor, mas recuperou a voz rapidamente.
—Esse vídeo está fora de contexto.
Rodrigo cerrou os dentes.
—Também está fora de contexto o fato de terem usado minha assinatura digital para autorizar pagamentos a uma empresa de fachada registrada em nome do seu motorista.
Sofi perguntou em voz baixa:
Será que o cavalheiro elegante roubou?
Ninguém respondeu.
Ignacio apontou o dedo para Elena.
"A culpa é dela. Desde que aquela mulher chegou, ela te manipulou. Ela te virou contra a sua própria família."
Rodrigo sentiu vergonha. Não por causa da pintura, mas porque acreditara num homem que chamava a conveniência de "sangue".
"Não", disse ele. "Ela trabalhava. A filha dela pintava. Você roubou."
Ignacio aproximou-se com os dentes cerrados.
—Pense bem. Se você me prejudicar, isso manchará o nome da sua família.
—O nome da minha família já estava manchado. Vou parar de varrer isso para debaixo do tapete.
Então Rodrigo chamou a segurança e seu advogado. Ignacio tentou pegar o celular, mas um guarda-costas o impediu. Os investidores se afastaram como se a elegância do corredor cheirasse a esgoto.
Elena queria ir embora.
—Senhor, eu não deveria estar aqui.
Rodrigo olhou para ela. Pela primeira vez, não como um chefe, mas como alguém que acabara de enxergar uma verdade graças a uma garota de botas roxas.
—Você vai ficar. Preciso que você ouça uma coisa.
Ele abriu outro arquivo na tela. Era uma gravação. A voz de Ignacio soava clara, zombeteira, cruel.
"Deixem a faxineira em paz. Ela é uma distração. Se alguma coisa sumir, ela vai levar a culpa. Ela tem uma filha, mora longe e ninguém vai acreditar nela."
Elena sentiu o chão desaparecer.
Ela já havia sido escolhida como culpada antes mesmo do crime ser cometido.
Sofi olhou para sua mãe chorando e ergueu o pincel na direção de Rodrigo.
—Devo fazê-lo parecer zangado agora também?
Rodrigo não soube responder.
Porque nesse exato momento chegou o advogado da empresa com dois auditores, e Elena viu algo pior do que raiva no rosto de Ignacio: medo.
O que você acha que Rodrigo deveria fazer agora: proteger Elena mesmo que isso afete sua família, ou permanecer em silêncio para preservar o nome da família?
PARTE 3
Ignacio não caiu naquela tarde.
Homens como ele não se acovardam ao primeiro sinal de problema. Eles endireitam o paletó, ligam para seus contatos e transformam a vergonha em autoridade. Em menos de uma hora, ele já dizia que Rodrigo era instável e que um funcionário o havia manipulado.
Mas desta vez Rodrigo não estava sozinho em suas dúvidas.
Patricia Salgado, advogada da empresa, solicitou as gravações completas das câmeras de segurança, registros de acesso, faturas e contratos. Ela também solicitou os comprovantes de pagamento da manutenção da mansão.
Foi aí que surgiu a segunda verdade.
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