Ontem à noite, depois de tudo isso, sentamos à mesa da cozinha comendo as sobras do bolo de aniversário em tigelas, porque nenhum de nós tinha energia para usar pratos.
Alma estava usando um dos meus moletons. Seu cabelo estava preso de forma frouxa. Ela usava o colar de ouro no pescoço.
Ele parecia mais jovem daquele jeito. Mais suave.
Ela cutucou o bolo e disse: "Eu costumava pensar que ser adotada significava que minha vida tinha duas histórias separadas. Antes de você e depois de você."
Espere.
Agora ele disse: "Já não penso assim."
"O que você acha agora?"
Ele me olhou por um longo momento antes de responder.
"Acho que talvez tivesse uma história. Estava partido ao meio. E ontem me devolveu uma parte."
Tenho pensado nessa frase o dia todo.
Talvez aquele fosse realmente o envelope.
Não era apenas uma carta. Não era apenas um adeus de um homem cujo tempo havia se esgotado.
Uma ponte.
Entre o pai que a amava mais do que tudo e a mãe que a amava constantemente.
Entre a garota que esperava que todos fossem embora e a jovem que finalmente se permitiu acreditar que alguém ficaria.
Ainda não sei o que encontraremos nas outras cartas. Decidimos abri-las quando ela estiver pronta. Não de acordo com a idade dos envelopes, mas sim de acordo com o que seu coração puder suportar.
O que eu sei é que ontem à noite, antes de subir as escadas, ele parou na porta da cozinha e olhou para mim.
"Boa noite, mãe", ele me disse.