PARTE 2: O VEREDITO DE SANGUE E PODER – Notícias

A cozinha ficou tão silenciosa que o gotejar da gordura do peru na assadeira soava como o tique-taque de um relógio.

David sorriu zombeteiramente, encostando o quadril no balcão onde meu sangue começava a manchar a barra do meu avental. Ele segurava o telefone como um troféu, convencido de que a voz do outro lado da linha pertencia a um fantasma, um velho de um passado conturbado sobre quem ele havia mentido para não passar vergonha.

"Quem está falando?" perguntou David, com um tom carregado da arrogância condescendente que geralmente reservava para seus colegas mais jovens. "Sou David Vance, marido da Anna. Ela está tendo um ataque de nervos no jantar e insistiu para que eu ligasse para você. Devo dizer, meu caro, que sua saudação foi um pouco exagerada, não acha?"

Houve uma pausa de três segundos na linha. Um silêncio denso e sufocante. Quando a voz falou novamente, o leve e indiferente escárnio no rosto de David não apenas desapareceu, como congelou.

“David Vance”, disse a voz. Não era forte. Não precisava ser. Possuía aquele peso absoluto e aterrador que só poderia pertencer a um homem que dedicou três décadas a decidir o destino das nações. “Você está falando com o Juiz Presidente Arthur Sterling. E você tem exatamente sessenta segundos para me dizer por que minha filha está chorando, ou eu vou garantir que o governo dos Estados Unidos destrua sua vida pedaço por pedaço.”

O sorriso zombeteiro de Sylvia desapareceu. Ela engasgou, levando a mão à boca, as unhas bem cuidadas batendo contra os dentes.

O telefone de David quase escorregou de suas mãos. A cor sumiu de seu rosto tão rapidamente que ele parecia um cadáver sob a luz fluorescente e impiedosa da cozinha. Sua mente, treinada para uma defesa jurídica ágil, simplesmente desligou. Todos os advogados do país conheciam aquela voz. Eles assistiam às suas audiências televisionadas. Eles estudavam suas decisões históricas na Suprema Corte.

“Juiz Presidente?” David gaguejou, a voz de seu advogado, suave e melodiosa, transformando-se em um lamento lamentoso. “O pai de Anna… O pai de Anna está morto. Ela cresceu no sistema estadual…”

“Anna cresceu sob proteção federal porque sua mãe foi assassinada por um chefe de cartel que eu coloquei atrás das grades”, a voz do meu pai falhou como uma guilhotina. “Ela escolheu viver discretamente. Escolheu mudar de nome para encontrar um homem que a amasse por quem ela era, não por sua linhagem. Parece que ela cometeu um erro de julgamento catastrófico.”

Uma cólica aguda e agonizante atravessou meu abdômen. Arfei, com a testa pressionada contra o piso frio de azulejo. "Papai..." solucei, cega de dor. "O bebê... Sylvia me empurrou. David não me deixa ligar para o 911. Ele quebrou meu telefone. Ele disse... ele disse que os vizinhos iriam falar."

Do outro lado da linha, não se ouviam gritos. Ouvia-se algo muito pior: o clique de uma caneta sendo aberta, seguido pelo farfalhar do papel.

“David”, disse meu pai, baixando a voz para um tom que me arrepiou. “Você jogou golfe com o xerife Miller, não foi? Acha que ele é seu escudo?” Uma risada fria e sem humor crepitou do outro lado da linha. “Eu nomeei o comitê federal de supervisão de Miller há dez anos. Neste exato momento, estou apertando um botão na minha mesa. Em quatro minutos, agentes federais, uma ambulância blindada e uma escolta da polícia estadual estarão na sua casa. Se minha filha perder esse rapaz, David… não existe prisão neste país funda o suficiente para te esconder de mim.”

A linha foi cortada.

David encarava a tela preta do celular, com o peito ofegante. O terror que emanava dele era palpável. Ele olhou para mim, com os olhos arregalados e os lábios trêmulos. O marido poderoso e abusivo havia desaparecido; em seu lugar, uma criança aterrorizada que percebeu ter pisado em uma mina terrestre.

"Anna", ele sussurrou, caindo de joelhos, com as mãos tremendo violentamente enquanto se aproximava de mim. "Anna, querida, eu não sabia. Juro por Deus, eu não sabia. Deixe-me ajudá-la a levantar. Vamos levá-la até o sofá..."

 

 

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